Metamorfose_1

É só uma narrativa, um avivar de memórias, nada mais.

O meu transplante renal de 21 anos

O transplante renal e de outros órgãos, é uma grande vitória da ciência, e uma considerável melhoria da qualidade de vida do insuficiente renal crónico, mas quando o rim transplantado não é bastante compatível, de preferência de dador vivo familiar, é como uma lotaria, pode ser um verdadeiro pesadelo.

Após 4 anos de hemodiálise, chamaram-me para um transplante renal. Fiquei a saber que era a nº 1000, desse hospital. Mais tarde comemoraram esse acontecimento, mas não fui convidada… pois eles só estavam a comemorar o rim nº 1000.

O meu irmão era transplantado há anos, e só ia a uma consulta de 6 em 6 meses, sem qualquer efeito secundário, de maior, só tomando os 3 imunossupressores, e nem anemia tinha. Tinha uma ótima qualidade de vida. A minha mãe fez 20 anos diálise, nunca chegou a ser transplantada, e estava completamente deformada fisicamente, com imensas dores. Tinha uma péssima qualidade de vida.

Na 1ª semana, comi a feijoada do hospital, como se fosse o maior pitéu de há 4 anos! Disseram-me – só vocês, os transplantados é que gostam desta comida! Não comia feijão, cozido à portuguesa, grão, banana, dobrada, etc., não bebia líquidos há 4 anos.

O nosso proibido (alguns de consumo limitado) cardápio, na hemodiálise:

Passada uma semana saí, de máscara na cara… faz lembrar estes tempos de agora. No dia seguinte, fiquei de rastos com febre altíssima, liguei para o hospital, receitaram-me Paracetamol e um duche de agua fria. É claro, no outro dia estava lá, mais para lá do que para cá, e ainda por cima levei um raspanete do chefe, que eu não tinha avisado e ia perder o rim, depois pediu desculpa, afinal tinha ligado. Fiz rejeição, apanhei uma superbactéria, e por mais antibióticos não davam conta disto. Foram 2 meses.

Eu, que tinha baixas tensões de 10/7, comecei a ter tensões de 20 e muitos, mínimas de 9.10, hiper hiper tensa. Fiquei a saber que passei a ser uma hipertensa crónica, o que ainda por cima, conduz a insuficiência renal crónica… Comecei com 2 comprimidos e acabei com 4 diferentes por dia, não baixando de 15, 16 de máxima, mesmo com tanta droga.

Tenho uma fotografia tirada uns anos depois, da contagem dos medicamentos, com a mesa de jantar repleta deles, acho que eram uns 15 ou 16 diferentes. Os imunossupressores, eram 3, e os outros para os efeitos colaterais destes: para o colesterol, diuréticos, antihipertensivos, protetores gástricos, antibióticos, cremes e mais cremes para a pele. A anemia continuava, mas felizmente já não precisava de transfusões, agora era com uma “caneta” de eritropoetina, injetada uma vez por semana, dada pelo meu companheiro.

Os corticoides provocam edemas, acumulação de gordura, osteoporose, dores nas articulações, tensão alta e outros efeitos. Pouco tempo depois estava irreconhecível, pesava mais 20 kg, a cara como uma abóbora, redonda e vermelha, a barriga parecia que ia rebentar, de tanto inchada, e começaram a surgir os pelos por todo o corpo, parecia um orangotango, peito, rabo, barriga, costas, mãos, pés, cara, sobrancelhas, couro cabeludo, tudo! só não tinha pelos na palma das mãos. Cada 3 dias tinha que passar um produto para aloirar os pelos da cara, pois era inviável depilar toda a cara. Estava irreconhecível.

As minhas pernas pareciam pernas de elefante, não conseguia estar em pé parada, e sentada, só com as pernas para cima. Após uns meses, doíam-me todas as articulações do corpo. Enviaram-me a uma consulta de reumatologia num Hospital Publico, resultado, tiraram-me o medicamento para o colesterol e outros. Continuou, então a minha médica enviou-me para o consultório privado de um “conhecido e excelente reumatologista”. Durante a consulta pediu-me para me dobrar e tocar com as mãos no chão, sem flexionar os joelhos – aí está, o que você tem é síndrome de hipermobilidade articular, que devido a uma imobilidade temporal, provoca muitas dores. Deste modo me despachou, ao mesmo tempo que fazia um telefonema particular, sem nenhuma indicação de fisioterapia, ou outra. As dores continuaram.

Apesar de tudo isto, continuava eufórica, a liberdade, ainda que um pouco limitada a principio, e não ter que fazer diálise, era maravilhosa, eu andava nas nuvens.

Durante anos não me queixava realmente dos efeitos estéticos e dermatológicos. Quando, timidamente, os abordava nas consultas, respondiam-me invariavelmente ” já se esqueceu da hemodiálise ?” como se a medicina não fosse uma ciência global, incluindo a psicologia do indivíduo, logo psicossomática, e eu não tivesse o direito de me queixar, somando o facto de passar a maior parte do meu tempo no hospital com problemas.

As pessoas transplantadas, por protocolo e escassez de recursos, só são seguidos no Hospital onde fizeram o transplante, devido ao controle e fornecimento dos imunossupressores. Isto significa, que, por exemplo, um doente em Faro, como não há transplantes no Algarve, e ele se inscreveu em Coimbra, a qualquer sinal de infeção, febre, diarreia (que expulsa os imunossupressores), terá que se deslocar a Coimbra, a mais de 400 km. Temos regularmente análises e consultas, normalmente no mesmo dia, e se bem me lembro começava de madrugada e só saía já noite.

Tinha como médica atribuída, uma personagem, fria, distante, formal e insensível. Tratou-me sempre por Dona Margarida, durante uns 10 ou mais anos que passei nesse 1º Hospital. A sua secura era de tal ordem, que cheguei a escutar outras consultas encostada à porta, para me certificar que não era só eu, mas era assim com todos. A qualquer queixa, respondia invariavelmente que era de fabrico. Fora do consultório não me conhecia.

Quando mudei de médico, era o diretor de nefrologia, este reconheceu que os corticoides foram excessivos e que esta terapêutica já não se aplicava do mesmo modo, e que eu teria envelhecido uns 10 ou 15 anos em consequência dela, com alguns efeitos colaterais irreversíveis.

(continua)

Publicado por

JÁ ESTOU NOS 60, SOU DO REINO DOS ALGARVES, HIPER SENSÍVEL ÀS AFRONTAS URBANÍSTICAS E SOCIAIS  E FAÇO HEMODIALISE 3 X SEMANA

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