Moçambique II

Como chefe de turma, era obrigada a algumas tarefas politicas, como já referi antes, como o içar da Bandeira no inicio do dia, assistir a reuniões politicas ou educativas frequentes, no Anfiteatro, a ir a manifestações e organizar mensalmente a reunião de pais dos alunos da minha sala. Os pais, na maior parte, não falavam português, eram os miúdos que traduziam. Resolvi fazer um dicionário de ronga misturado com changana, esta é mais falada em Gaza, só para soltar umas risadas gerais quando falava alguma coisa nessa língua, como: Auxene – bom dia, Hambanine – chau, I malè muni? – Quanto custa?, Hi mina Margarida – sou a Margarida.

Tinha levado de Portugal, alguns livros e cassetes de música, entre eles, o Ulysses, de James Joyce que deveria entregar a alguém, que durante meses não consegui encontrar. Um dia estava à boleia junto ao Hotel Polana, para uma Diane conduzida por uma rapariga, e não sei porquê, perguntei-lhe se ela se chamava a tal, e era mesmo! Inevitável…

Uma amiga do hotel, a Cristine, austríaca, convidou-me para ir viver com ela. Lembro-me de ela fazer um lindíssimo batik, representando um cravo de Abril, a sair do cano de um fuzil.

Um ano passou-se. Sabendo que um colega meu cooperante ia acabar o contrato e estava numa casa, corri aos serviços competentes, ou incompetentes, para fazer cumprir o meu contrato e ter direito a essa casa. Consegui. A casa era um T0, de uns 20 e poucos m2, a cama, um armário e o WC escondiam-se atrás de uma parede aberta, a cozinha espreitava ao fundo, em frente à porta de entrada e havia uma porta traseira para um quintal comum a vários edifícios.

A água era a conta gotas, e sempre incerta, então a vizinhança alertava – chegou água! e todo o mundo armazenava como podia, eu enchia a banheira. Tinha um empregado, o Fernando, era usual a maioria dos empregados domésticos serem homens, tradição colonial, que limpava, cozinhava o carapau da ração, carapau à Gomes de Sá, frito, cozido, panado, etc e lavava a roupa. Não me lembro quanto lhe pagava, mas comíamos os dois e dava-lhe o que podia. Era ele também que ia para a bicha da ração e costumava alongar um pouco essas saídas, depois vim a saber que andava a namoriscar. Quando conheci a mulher, perguntei-lhe – Ó Fernando, tem uma mulher tão linda porque vai com as outras? Senhora Margarida, então quando vai à baixa e tem sede, não volta para casa a beber, não é? mas ele era uma simpatia.

Aviso do Fernando deixado em casa, para “panar ropa ataraz” ( para não me esquecer de apanhar a roupa no estendal nas traseiras)

Aviso colorido, cheio de flores pintadas do meu empregado, para não me esquecer de apanhar a roupa

Das 1ªs coisas que fiz quando cheguei, foi comprar uma bicicleta e circulava por lá como uma miúda deslumbrada a fazer piruetas, a subir até ao cimo das escarpas, para descer sem as mãos no guiador, por ali a baixo. O meu primeiro amor foi um tanzaniano, controlador aéreo, com contrato de mais 1 ano, conheci-o no Hotel, só falava o inglês e a sua língua natal, o suaíli. Com ele aprendi de cor a lindíssima canção Malaika.

Eu era meio infantil, e os nossos passeios ali perto do hotel, por vezes acabavam em cima das árvores, como macaquinhos. Ele era muito meiguinho, mas a comunicação só em inglês, estava a tornar-se insuportável. Quando o seu contrato chegou ao fim, eu só me despedi, como um adeus ou como um até já, sem paixão. Ele esvaiu-se em lágrimas. Acho que nem fiquei sequer com um contacto, foi estúpido e desumano, mas eu era mesmo uma criança e hoje tenho muita pena de não poder saber dele.

Eu parecia a Ângela Davis, tinha o cabelo aos caracóis forte e denso, uma expressão um pouco dura, dos macaquinhos político-infantis do meu mundo onírico marxista-leninista-maoista-cervejista-udpeista- boemista, detentora da verdade incontornável, detesto esta palavra, prefiro incontrolável; Isto faz-me lembrar lá em Lagos, no Algarve, as pessoas diziam que controlavam as rotundas, não as contornavam. Um dia, no hotel, conheci o Mia Couto de raspão, porque era irmão de um rapaz que fazia parte do meu grupo de amigos à roda da mesa redonda do restaurante do hotel, ele olhou para mim e disse-me que parecia uma guerrilheira da Nicarágua, e acho que era mesmo esse o meu aspeto, eu estava em Moçambique numa missão de salvação da humanidade, etc. Idade naif, depois passa.

Tinha um bom grupo de amigos no hotel e na escola, amigos de boa conversa, festas, copos, passeios. e de várias cores e nacionalidades. Uma das amigas era austríaca, lindíssima, a Cristina, advogada que trabalhava para o Governo, não me lembro bem, mas penso que estava relacionado com contratos estrangeiros com Moçambique, o que explicava o elevado estado de desespero, irritação e impotência diárias, contra o défice de honestidade, competência e elevada alienação do património do povo moçambicano.

Não havia bens, nem de 1º, 2ª ou 3ª necessidade à venda, mas havia tabaco, só que a cola do cigarro não colava, e o fumo saía por todo o lado, então eu andava com um rolo de fita cola para cada cigarro que fumava. Também não havia remendos para as câmaras de ar da bicicleta, e isto mais umas cabeças de alho, foram as únicas coisas que pedi à família, lá em Portugal, durante os 2 anos de contrato.

Cigarros de Moçambique anos 80
Cigarros de Moçambique anos 80

O tabaco era uma moeda de troca, quando éramos abordados pela autoridade, à mínima coisinha real ou imaginária. Uma vez ia de carro com um amigo, sentada ao lado, e estaria a mexer em qualquer coisa, não me lembro, e debrucei-me um pouco, fomos mandados parar pela policia, que pergunta o que eu estava a fazer, se era verdade ou não, isso não interessava, e lá tivemos que dar o meu maço de tabaco…

( A continuar … )

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JÁ ESTOU NOS 60, SOU DO REINO DOS ALGARVES, HIPER SENSÍVEL ÀS AFRONTAS URBANÍSTICAS E SOCIAIS  E FAÇO HEMODIALISE 3 X SEMANA

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