Moçambique III – Muhípiti

Nas férias fui servir de tradutora a uma jornalista austríaca, amiga da Cristina, que pretendia fazer uma reportagem sobre Moçambique. Apanhámos o voo para Nampula. Visitámos a Catedral de Nossa Senhora da Fatima, com pinturas de Sousa Araújo, e o Mercado onde se vendia pedras preciosas, olaria, esculturas, cestaria, uma grande variedade de peixe, hortícolas, mas com deficiente higiene. Comparando com o de Maputo, que era uma desolação, foi uma alegria ver produtos comestíveis à venda. Fomos depois, visitar uma cooperativa de escultores de madeira “pau-preto”, de origem maconde, apesar da maioria nesta região ser macua. Só foi pena não assinarem individualmente as belas peças que cada um fazia. Não resisti à compra de um elefante gigantesco e extraordinariamente bem detalhado e expressivo, mais uma peça também enorme, que representava a tribo, ou a família, como um tronco na qual esculpiram as caras de mulheres e homens ( foto na galeria). No regresso a Portugal, não me autorizaram a trazer o elefante, ficou em casa de uma querida amiga de escola. Seguimos depois para a ilha de Moçambique. (podem clicar na galeria para mais detalhes)

“Omuhipiti” ou “Muhípiti”, nome dado pelos nativos à Ilha de Moçambique, é Património Mundial da Humanidade (1991), pela riquíssima história e património arquitetónico.

Foi aqui que tudo começou, esta era a capital de Moçambique, onde antes da chegada de Vasco da Gama, em 1498, era já um concorrido porto comercial Árabe, pertencendo ao sultão de Zanzibar, vindo a tornar-se depois num importante entreposto de permuta de especiarias, missangas, escravos, panos, pau-preto e marfim, como também de reparação de naval, e degredo, na rota comercial da Europa Ocidental até à India e mais tarde à Ásia.

A Ilha de Moçambique e “praticamente todo litoral moçambicano congregavam, desde os séculos XV e XVI, populações muitas variadas, tendo cada uma, deixado marcas da sua cultura: Macuas, Goeses, Hindus, Muçulmanos e Portugueses”. Sobre a Ilha de Moçambique foi produzida literatura de grande valor histórico e literário.

A expansão comercial e o advento do Islão, os núcleos islamizados e/ou entrepostos comerciais espalhados ao longo da costa oriental africana, estruturaram-se em unidades político-administrativas sob a designação de Xeicados e Sultanatos, tal são os casos de Lamu, Mombaça, Zanzibar e Quiloa. O Xeicado da Ilha de Moçambique foi fundado por Hassani Moussa M’BiKi (de onde advém o nome de Moçambique), por volta do século XI.

Municipio da ilha de moçambique

Arquitectonicamente, a Ilha está dividida em duas partes: a “cidade de pedra” e a “cidade de macuti“. A primeira tem cerca de 400 edifícios, incluindo os principais monumentos, e a segunda, na metade sul da ilha, tem cerca de 1200 casas de construção precária. No entanto, muitas casas de pedra são igualmente cobertas com macuti.

Wikipédia

Na parte Norte, de pedra, cal e madeira, influência suaíli e portuguesa, onde viviam maioritariamente os portugueses, em tempos idos, encontrei lojas abandonadas, de porta aberta, onde grande parte do recheio, se encontrava intacto, como é o caso de uma barbearia, com o mobiliário, espelhos, e vários apetrechos de barbeiro, empoeirados e descoloridos, como se tivesse havido uma debandada geral, por qualquer catástrofe, e a cidade parecesse um fantasma parada no tempo. Também me lembro de uma loja turística, abandonada há anos, ainda com os búzios, corais e grandes conchas, numa montra, completamente brancos, do sol.

Principais Edificações Portuguesas : Torre de São Gabriel (1507), a Capela de Nossa Senhora do Baluarte (1522) e a Fortaleza de S. Sebastião (1558-1620).

Um coro de mulheres ouvia-se ao longe, na Praça central. Aproximámo-nos, e era lindíssimo, o seu canto e elas também, belas com as suas capulanas à cintura e um lenço na cabeça. Estavam sentadas nos degraus da Igreja, com a cara coberta de branco, e fomos falar com elas. Disseram-nos que aquela pasta na cara era o mussiro, extraído de uma planta e obtida, esfregando o caule numa pedra, adicionando depois um pouco de água. Era um cosmético centenário, que servia para amaciar a pele e disfarçar as manchas. Tirámos algumas fotos e elogiamos os padrões das suas capulanas, perguntando onde poderíamos comprar uma ou duas capulanas parecidas. Ficámos a saber que as capulanas era como um enxoval ou uma preciosidade passada de mães para filhas, guardadas gentilmente num baú, usadas em ocasiões festivas.

Algumas mulheres ofereceram-se para irmos a sua casa ver umas capulanas, e acabámos por comprar umas 3 ou 4 bonitas capulanas (na foto, 2 das que trouxe de Maputo e da Ilha) e ainda nos ofereceram 2 paus de mussiro, que ainda guardo bem guardado, tão bem , que “desconsegui” de encontrar. ( quando encontrar as missangas, o tronco e as fotos, hei-de publicar, mais tarde)

Fomos até a praia, junto ao areal e qual não foi o nosso maravilhamento, ao encontrar missangas de vidro, ou de pedra especial, coloridas de um azul magnifico, verde e amarelo, bem datadas, dado o seu aspeto fosco e riscado, as alegadas missangas de naufrágios mouros, que continuariam a dar a costa, juntamente com moedas antigas e outras relíquias do passado. Trouxe algumas missangas, é claro, como se fossem um precioso tesouro histórico. Quase cheirava a canela e açafrão e se ouviam os clamores dos escravos, a mancha do seu glorioso passado.

Na parte sul da ilha, onde nos encontrávamos, assistimos à construção de uma casa de barro e cobertura de folhas de coqueiro espalmadas, e se bem me lembro, a base seria só feita pelas mulheres. Achei a casa enorme e bem construída, fresca e arejada, adequada ao clima e a famílias numerosas.

Quando em 1898, a capital se mudou para “Lourenço Marques”, atual capital “Maputo”, e mais tarde com a independência de Moçambique, a ilha regressou aos seus antepassados, os bantus, que se tornariam os Swahili, pela influencia islâmica, recuperando a serenidade e o mar só para eles. Hoje, até os turistas se foram, em tempo de pandemia. No meio das ruínas colonialistas, mercantis e das fortificações obsoletas, do tempo dos ataques árabes e europeus, vão sobrevivendo com a pesca (rica em peixe e crustáceos), o artesanato, aproveitando os despojos do oceano, pintura, escultura e a pequena agricultura.

Agora que todas as guerras acabaram, planos de reconstrução, saneamento, projetos inovadores individuais, e Universitários, como o projeto das Oficinas de Muhipiti e outros, ligados a instituições culturais portuguesas e internacionais, como a Unesco, associado a uma melhoria da educação, haverá esperança de justiça e melhores condições de vida para os seus habitantes naturais, esperança no futuro.

Alguns Poetas Moçambicanos, uns deles, nascidos na Ilha, (um deportado, Tomás Gonzaga), que a celebraram de uma forma lírica emocional, encantatória e outros, mais racional e anticolonialista :

De antes da Independência – Tomás António Gonzaga, Rui Knopfli, Campos de Oliveira, Virgílio de Lemos, Orlando Mendes, Alberto de Lacerda, Glória de Sant’Anna.

Depois da Independência – Luís Carlos Patraquim, Armando Artur, Mia Couto, Eduardo Pitta, Eduardo White e Sangare Okapi.

Refiro ainda a bela antologia “A ilha de Moçambique: pela voz dos poetas”

ILHA DOURADA, Rui KnopfliO País dos Outros, 1959

A fortaleza mergulha no mar
os cansados flancos
e sonha com impossíveis
naves moiras.
Tudo mais são ruas prisioneiras
e casas velhas a mirar o tédio.
As gentes calam na voz
uma vontade antiga de lágrimas
e um riquexó de sono
desce a Travessa da Amizade
Em pleno dia claro
vejo-te adormecer na distância,
Ilha de Moçambique,
e faço-te estes versos
de sal e esquecimento.

Sangare OkapiMesmos Barcos, 2007

fechada
toda de agrura

alguma 
amargura
em si trancada

todo o amor 
e mar

é sal e lágrima
no poema.

Alberto de Lacerda (nascido na Ilha)

L’isle Joyeuse (A Ilha alegre)

Ó festa de luz de mar tranquilo
De casas brancas dum branco rosa
Dum tempo antigo que aqui ficou
Ó ilha pura incandescente
Que me geraste três vezes mãe
Três vezes para mim sagrada
Por teres deuses tão variados
Por seres livre da liberdade
Que os deuses gregos orientais
Marcam a fogo um fogo alegre
Naqueles seres naquelas ilhas
Que eles nomeiam seus próprios filho

Orlando Mendes, 1992

Minha Ilha

Nos paralelepípedos das mais antigas infâncias
dei também meus passos balbuciantes e seguintes.
Todos os dias pés sem idade acorrentados
trituravam o salitre poeirado pelos ventos Índico
e a cortiça nua das solas e dos dedos
fazia o périplo da ilha sobre corais
onde no palácio o governador-geral mandava despachos
que a corte recebia incrustada de pedrarias
nas entranhas digerindo riquezas carnais.
E o salitre vinha e ardiam os pés das gerações
e nos pátios dos prédios senhoris floridos
se construíam novos lares de oriunda linhagem.
Por ali estiveram Camões das amarguras itinerantes
e Gonzaga da Inconfidência no desterro em lado oposto.
Era a rota dos gemidos e das raivas putrefactas
e dos partos que haviam de povoar as américas
com braços marcados a ferro nas lavras e colheitas.
Ruíram paredes grossas chegaram outras naus
morreram marinheiros por ordem soberana de el-rei
e obediência de seus filhos sem coroa fixando preços.
Agachavam-se as sombras com a passagem dos rickshaws
na ponta da ilha farinha não levedava pão mas fezes
e o sono evadia-se dos ossos para o metrónomo da noite
Em frente na costa que orla o interior
nascia o poeta guerrilheiro Kalungano
que disparando balas cantaria para nós
o amor e as flores do dia de hoje litoral
em que a ilha se liga ao continente por uma ponte
e os barcos à vela macuas são donos do mar

A ILHA de Eduardo White

Um pássaro revolve as asas por dentro do azul esbatido do mar. Traça a casa líquida que às estrelas, certamente, o seu piar vai dar. A história é-lhe longe, são formas entrecortadas sobre a espuma amarelecida dos navios cargueiros, que beijam lentos o horizonte e movem silenciosos outras cargas. A ilha suspende-se entre o vento e um negro reluzente cruza a praia com os olhos lavrando as areias. Não sei se reza, mas que pensa é mais que evidente. Testemunham os brancos cabelos e as mazelas no caqui dos desbotados calções. Cheira a marisco a brisa que inalam as narinas dentro desta paisagem e a cânfora, alguma, das memórias que ela desenha. As redes que sobre o chão encontramos estendidas, são cartas oceânicas que escreve o fundo do mar. Do texto salta a prata dos peixes, o verde amaciado das algas e uma estrela imóvel que explode por dentro a terra toda a girar. Claro que a areia as grava. Nossa forma de escrita mais milenar que a geringonça mágica de Gutemberg, porque Deus descansa aqui ao cair da noite. Silenciosamente medita por entre as lágrimas das tartarugas que junto a ele vêm desovar ou de um negro macúa, estirado sobre o desgosto, a chorar um amor que por teimosia não quer morrer. Vão longe a navegar os versos da miséria que do Luís de Camões a história quis esconder. Os ducados que nunca teve, nem para voltar nem para morrer, servem outros democráticos reinados e engordam a mesa dos que ainda julgam que poeta bom só miserável pode escrever. Lêem e estudam o que os poemas não dizem, sábios doutores esses universos etários, e nem com verdade podem, entretanto, entender o que eles explodem e dóiem e fazem crescer no coração esquecido dos seus autores. Por isso a Ilha é calma. Tonta de tanta quietude e talvez será o que querem dizer as faces delicadas das suas negras, as mãos talhadas dos seus ourives e os olhos aluadores e viajantes das suas crianças. Por isso o meu velho Camões, macúa zarolho só por ter visto sempre demais, terá talvez aqui amado seu negro, seus humanos adamastores e com eles provado essa fatalidade incontornável, de ser poeta sem ilha na ilha extensa dos que aqui, até hoje, não sabem ler.

Oiçamos a grande Zena Bacar, com a banda Eyuphuro, da Ilha de Moçambique, album “Mama Mosambiki”, de 1986

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JÁ ESTOU NOS 60, SOU DO REINO DOS ALGARVES, HIPER SENSÍVEL ÀS AFRONTAS URBANÍSTICAS E SOCIAIS  E FAÇO HEMODIALISE 3 X SEMANA

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