Os Amigos A Escola e a Pide

Estava proibida de conviver com ela. Parecia um rapaz, vestia-se como um rapaz, guiava um carro, sendo menor. E tinha chofer e tudo! Parecia mal, andar com ela, o que haveriam de dizer, um ser assim tão discordante, bizarro.

Era um casarão, com um grande quintal, que se misturavam, como um só; as galinhas, os cães, gatos e outros bichos, circulavam livremente por todo o lado. Ficava mesmo junto à minha casa, quase à frente, do outro lado. Eu ia lá ter explicações de francês, com a madrinha, como lhe chamavam, e era uma simpatia.

Havia uma senhora, talvez centenária, que já não se movimentava, e estava sempre sentada, num quarto dos fundos, a ver televisão, a um palmo do écran, com os olhos semi cerrados, para melhor enxergar, pois não usava óculos. Havia também uma outra senhora, mais uma madrinha, muito forte e muito atarefada, que se arrastava, de um lado para outro. A tal senhora, era a mãe delas, o seu marido, era escrivão, e já tinha falecido.

A Momi, teria sido adotada ainda criança. Como eram pessoas bastante letradas, havendo livros espalhados por todo o lado, então ela se iniciou bem cedo, nas artes e literaturas.

Lá por casa, só os meus irmãos, mais velhos, liam, e já tinham uma biblioteca considerável. Teria eu, uns 12 ou 13 anos, quando me pus a ler umas coisinhas mais sérias, tiradas da estante deles, à socapa, e acho que o 1º foi logo o Crime e Castigo de Dostoievski, nada mau! e adorei.

Quando comecei a conviver com a Momi, ela deu-me a ler o Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell, teria eu 13 ou 14 anos. Foi como se o mundo de repente se me abrisse, com todos os seus segredos e fantasias, paixões, sexo, guerras e traições, e a literatura, esta sobretudo ! a fascinação da literatura, da escrita, das frases, as palavras desconhecidas, das ênfases, do estilo, etc. Depois deste, nunca mais parei, queria mais e mais, já não poderia viver sem elas, a literatura e a Momi. E também sem os seus, meus amigos, a trupe dos loucos, fascinantes amigos. Havia uma indiana, super talentosa, que fazia desenhos extraordinários, uma outra rapariga muito naturalmente sensual, e outra que tocava e cantava aquela da Janis Joplin “Me and Bobby McGee” traduzido por ” e apalpa-me aqui”, e outros bem curtidos.

A Belinha era a minha amiga do peito, inseparáveis como gémeas, que partilham todos os gostos musicais, ou quase, e principalmente o desporto, ainda que ela, pequenina e vivaça, como um pardalito, batia-nos a todos, quer no voleibol, ténis de mesa ou nos matraquilhos, uma Atleta com A grande, muito promissora. É pena que não tivesse seguido esse seu talento predestinato.

Ela também, lá tinha explicações, mas de inglês, com a mesma madrinha.

A imensa mesa da sala da Momi, era muito versátil, era uma mesa optima de ténis de mesa, de estudo, poiso da bicharada e também para grandes refeições, com visitas inesperadas e enigmáticas, vindas de longe.

Só faltava o cavalo, e as meias altas, de resto era a Pipi, sem dar nem pôr! A Momi, apesar de forte, era bastante ágil, e atleta. Tinha um problema hormonal, que a masculinizava um pouco, mas isso, era um pormenor sem importância, pelo menos para nós.

Conviver com ela, era como um ritual de iniciação em várias matérias. Na liberdade e no direito de ser e estar, na fruição dos espaços livres, como quando íamos acampar numa ilha quase deserta, no seu barco de pescador, a motor, pelos afluentes da Ria Formosa. Ela deitada na areia. em meditação, à espera da levitação do corpo, enquanto a deusa egípcia, dançava, nua, uma dança sensual, e à noite ao redor da fogueira, as filosofias esotéricas, casavam bem com a musica da Janis Joplin.

Com aquela idade, fazia-mos gincanas, com o carro, e cheguei a ir, a uma praia, a cerca de 12 Km, conduzindo o carro, uma loucura total!

Nesse tempo, durante o Estado Novo, do ditador Salazar, o ensino era meio misógino, e separatista. Não havia pavilhões, nem aulas mistas. No meu liceu, víamos os rapazes ao longe, através das grades, e ai de quem lhes dirigisse uma palavra, era logo expulso! O castigo e a intimidação eram os principais métodos de ensino e disciplina, ah, e a memorização também. Todos tinham uniforme, as batas, com uma fitinha colorida, conforme o ano, e o estado da bata ou a ausência da fita, podia mesmo dar expulsão, ou um bom tempo de castigo, em casa.

Havia uma professora de ginástica, que à minima irritação, pendurava as ditas alunas mal comportadas, no espaldar, de cabeça para baixo, por um tempo considerável. Havia outro, que sabendo que quando ele passava no intervalo das cadeiras, a malta fazia caretas, manguitos e atirava coisas uns aos outros, voltava-se de repente, tipo, aquele jogo 1 2 3 macaquinho chinês, e acabava nisto : tu, tu e tu fora!

São histórias infindáveis de professores tiranos e alunos engenhosos, assim como a censura e a manha dos escribas, nas suas entrelinhas.

Nós com 11, 12 anos, sabíamos que havia a Pide, policia politica, disseminada por toda a parte, podia ser um vizinho, o empregado do café, o professor, etc. Vivíamos rodeados de informadores. Dizia-se que um famoso explicador de matemática, onde eu andava, era da Pide. Mais tarde soube que alguns dos nossos vizinhos e conhecidos o foram. A minha maior surpresa foi saber que o vendedor de gelados e doces, diariamente plantado em frente do Liceu, era pide!

Os anos 70, foram um reboliço, ou uma pré-revolução, nas escolas, com o surgimento de novos professores, com novos métodos de ensino, e novos livros, pois os livros até aí, eram únicos e obrigatórios, de propaganda, conservadores e mentirosos. Era o caso de História e Filosofia, por exemplo. Tive a sorte de ter excelentes professores de Física, História e Matemática, aos 14 e 15 anos, já da nova vaga.

Este episódio a seguir, passou-se com uma professora de História, que nos introduziu, um conceito de história, mais realista, e menos dos heróis das conquistas, Reis, Rainhas e outras Altezas, e que uns anos mais tarde, se tornou uma estrela no universo da Educação e Informação, tendo inclusive um programa na televisão.

Fomos a numa excursão cultural a Évora, só raparigas, e ficámos hospedadas num convento de freiras. À noite, uma de nós conhecia uns rapazes, lá de Évora, e combinou com eles, escaparmo-nos de noite, furtivamente, para uma festa na casa de um deles. Eu e a Solange, as inseparáveis, achámos má ideia, e recusámos. tanto insistiram, que acabámos por ir quase todas. No regresso, encontrámos tudo fechado a ferrolho, fomos apanhadas! Ficou tudo histérico, cheias de medo, prantos e lástimas, terror! E eu, muito calma, como é meu hábito, em situações de stress, dizia-lhes que ia correr tudo bem, até porque eu não tinha sido a instigadora… Bom, só nos abriram a porta já de manhã, e com ar de cães de guarda de dentes arreganhados, obrigaram-nos a ir todas para uma sala. Ali, proferiram ameaças e criaram um clima de medo e culpabilidade, como se fossemos umas criminosas. queriam à força saber quem tinha sido a cabecilha. E sabem quem a professora apontou logo convictamente? Eu e a Solange, nós, as que resistimos até ao fim.

Uma acusação destas, daria, expulsão do Liceu, e fomos ameaçadas desse facto. Depois de várias testemunhas identificarem a “culpada”, livramo-nos de ser expulsas. Mas ficou sempre esse estigma, entre eu e a professora. Ela, apesar de introduzir métodos de ensino mais democráticos e científicos, provou que o espírito pidesco e de quartel, ainda perdurava.

Uns bons anos mais tarde, em Lisboa, cruzámo-nos num autocarro. Ela pediu-me desculpa.

Voltando à Momi, perdi-lhe o rasto, pois aos 17 anos fui obrigada a mudar-me para Lisboa. Quando soube dela, era diretora duma Escola lá na terra. A menina rapaz, que escandalizava as famílias burguesas de então, era agora a Senhora Diretora dos seus netos. Com que cara…

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