Uma Vida de Mar – 2

Continuação da publicação de excertos da epopeia marítima, do Comandante da Marinha Mercante, Jorge Manuel Correia Tomé. A sua atividade estendeu-se desde os anos 40 aos anos 80, do século passado.

PRIMEIRO VOLUME

A TRAVESSIA DO ATLÂNTICO NORTE E O MAR DOS SARGAÇOS

Durante as dezenas de travessias do Atlântico Norte, ao longo dos anos que andei no mar, quer tivesse saído do Canal da Mancha, de Lisboa ou do Estreito de Gibraltar, com destino aos Estados Unidos, ao Golfo do México, ou ao Canadá, sempre cruzei a zona Atlântica denominada Mar dos Sargaços, uma zona marítima compreendida entre a Latitude 25º Norte a 30º Norte e numa longitude 40º Oeste a 73º Oeste, onde camadas, umas isoladas, outras não, de Sargaço, que se encontram nesta zona geográfica, podendo atingir um pouco mais para norte ou para o Sul, consoante os ventos ou as correntes, que conduzem estas algas, ou que as circundam, em determinados ciclos periódicos anuais. A zona do Mar dos Sargaços, é o centro da circulação oceânica, sendo por isso, uma zona de correntes fracas e variáveis.

O limite Sul, vai até à Corrente Norte Equatorial, que corre no sentido oeste. No Oeste e Norte, o limite vai até à Corrente da Flórida, e a corrente do Golfo, correndo no sentido Norte e leste, e na sua parte Leste, é limitada pela Corrente Norte Africana.

A temperatura da agua do mar, na zona do Mar dos Sargaços, é relativamente alta, enquanto a diminuição da temperatura, é pequena, comparada com outras partes do Oceano. A sua posição nas baixas latitudes, ligada com a liberdade de fortes correntes, permite que a radiação do Sol, mantenha uma relativa alta temperatura nas camadas das aguas na superfície do Mar. As aguas do Mar dos Sargaços, são caracterizadas por uma alta salinidade relativa, de 36 a 37 partes de sal por mil, comparadas com 35 partes por mil, na zona do Atlântico Sul.

Toda esta área, está situada a uma grande distância de qualquer costa marítima continental, e por essa razão, não há descarga de agua com menos salinidade, produzida por por qualquer rio continental. Por outro lado, como esta região, é de alta temperatura, há condições favoráveis para a evaporação, e consequente aumento da salinidade. (…).

As aguas são muito límpidas, tendo um conjunto de factores tais, como a falta de sedimentos continentais (…) e a relativa pequena quantidade de plankton, organismos microscópicos, plantas e animais que abundam nas aguas de outras partes do Oceano.

A cor da agua do mar, nesta zona, torna-se num azul escuro, que contrasta com a cor esverdeada ou azul-esverdeada, que caracteriza o alto-mar oceânico.

As algas do Sargaço, ou Sargaço da Corrente do Golfo, são muito conhecidas do pessoal do mar. Todavia, esta alga, não é nativa do mar dos sargaços, apesar de se julgar, durante muitos anos, que assim fosse.

Sabe-se que o Sargaço, cresce no fundo do mar, desligando-se depois, por efeito de qualquer mau tempo, passando a flutuar para a superfície do mar.

Modernamente, sabe-se que a alga do sargaço, é de cor acastanhada, que cresce ao longo das costas marítimas, e ao desprender-se do fundo, chega ao Mar dos Sargaços, devido à Corrente da Flórida e à Corrente do Golfo.

Flutuam, devido a terem bolhas de ar, e crescerem vegetativamente, propagando-se por fragmentação, mas aparentemente, não formam corpos com fruição.

Estas massas flutuantes, formam um meio ambiente com numerosas associações, que incluem algas e formas animais. (…) Flutuam em pequenas ilhas ou grupos, não emaranhados, mas com ramagem entretecida, variando em tamanho de 30 a 60 cm, até 2 a 3 metros de diâmetro.

Quando sopra vento de fraca intensidade, as ilhas, transformam-se em linhas de algas. O espaço entre as linhas, levadas ou conduzidas pelo vento. é uma indicação da espessura da mistura da camada de algas, e da agua com a mesma temperatura. A cor geral das algas de sargaço, é de cor oliva, sendo as mais jovens de tom oliva-dourado, e as partes mais velhas, de cor castanho escuro.

O cálculo da quantidade de algas de sargaço, existentes no Mar dos Sargaços, depois de várias experiências de algas capturadas por redes de arrasto, e pela área dragada, depois de pesadas, levou a um peso estimado de 20 milhões de toneladas, constituindo por isso, uma riqueza muito pouco explorada.

Nestas colónias de algas, encontraram-se pequenos caranguejos, pequenos peixes, e outros pequenos animais, que no geral, não se encontram no mar aberto, representando um grande numero de espécies.

A parte do Atlântico Norte, na sua parte central, manteve-se como um mito ou lenda, durante muitos anos. O termo sargaço, nome que foi atribuído pelos primitivos portugueses navegadores, à alga, por possuir umas bagas ou vesículas contendo bolhas de ar, que as faz flutuar, e que se assemelham a uvas.

Encontram-se também estas algas, no Arquipélago dos Açores , em quantidade, juntamente com algum tronco apodrecido, após qualquer temporal, como acontece também nas nossas praias do continente europeu, onde dão à costa.

A presença do sargaço nos Arquipélagos dos Açores e da Madeira, deve ter levado, a que os primitivos navegadores portugueses, deduzissem haver, mais terras a Oeste destas ilhas.

Não devemos esquecer-nos, que foi na Madeira, onde residiu Colombo, por casamento com Filipa Moniz Perestrelo, cujo pai era donatário da Ilha de Porto Santo, e com quem, Colombo deveria ter discutido essa teoria das terras existentes a Oeste.

Alguns livros atribuem a Colombo a descoberta do mar dos Sargaços, pelo registo autêntico da ocorrência, de ter navegado no meio das algas marinhas, ou Sargaços, durante muitos dias, e o mesmo se tendo repetido no regresso dos navios de Colombo, o qual registou o facto de navegar através de algas flutuantes, com cor acastanhada.

Ler mais na NationalGeographic.pt

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