Metamorfose 3

As consultas neste segundo hospital eram no 7º piso (Os elevadores estavam constantemente avariados), quando chegava, mesmo com febre, tinha que ir para uma bicha considerável para validar a consulta, a seguir ia ao 3º piso, mais uma bicha para entregar os papeis e só depois ia até ao 7º piso. Aqui, só havia um pequeno banco, onde se sentavam normalmente os da propaganda médica. Quando tinha infeção, era preciso fazer a urina acética, davam-me 2 frascos de colheita, compressas ensaboadas e um frasco de soro. Este procedimento era feito na casa de banho, ali ao lado, a qual não tinha nada onde pousar as coisas, sabão ou toalhas de limpeza, e muitas vezes encontrava-a cheia de urina e fezes.

A minha 1ª infeção urinária neste hospital, levou-me a duas semanas ou mais de internamento, num piso de infeto contagiosos, onde me destinaram um quarto com mais 2 doentes. Quando cheguei, sem me darem qualquer medicação para a febre, e de ter ficado à espera umas boas horas depois da consulta, lá fui para o quarto; digo à auxiliar que não tinha trazido roupa, e ela ríspida – vocês são obrigados a trazer sempre as coisas quando vem com febre, agora não lhe vou dar os protetores de pés! e desapareceu. Quando passou uma enfermeira pedi-lhe os ditos e ela deu-mos, o que provocou um raspanete da auxiliar para com essa enfermeira. Na cama ao lado, junto à porta, estava uma rapariga, a Ana, com uns tubos ligados à barriga, que vim a saber mais tarde, era irmã duma colega do meu companheiro. Ela tinha um cancro nos intestinos.

Após bem uma hora de espera, apareceu a enfermeira com a medicação para o quarto, digo-lhe à laia de queixa que me automediquei porque estava cheia de febre e não me deram nada, e ela – automedicou-se? então não lhe vou dar mais nada, visivelmente zangada, e passou adiante. Levantei-me e fui pedir à primeira enfermeira que encontrei um paracetamol, pois estava a ferver de febre. Um bom tempo depois aparece a 1ª com um ar raivoso e a dizer-me algo desagradável, preparada para me por um cateter, tinha que ser na mão, mas eu disse-lhe que as minhas veias não se apanhavam, eram muito fracas, talvez por tanto antibiótico que havia tomado, e ela insistiu, apesar de doer bastante na mão. À 1ª não deu, à 2ª também não, e à 3ª só durou para um soro.

Estava menstruada e precisava de ir à casa de banho, esta era um cubículo onde só cabia uma pessoa e mal, de tal ordem que não conseguia entrar com o suporte do soro, tive que pedir para me desligarem momentaneamente para poder lá entrar. Quando estava à espera que me viessem ligar de novo, a tal enfermeira passou por mim e com ar ameaçador avisou-me que sabia o que eu andava a tramar, a pedir para andar sem o suporte, e que eu tinha me queixado dela (falso), e outros disparates que nem percebi bem, terminando com avisos e ameaças absurdas e estonteantes. Pensei, ela é louca, mas senti medo, desconforto, insegurança.

A Ana, a minha colega do lado, comia devagar, levando só pequenos pedaços à boca. Conversámos muito, combinámos encontrarmo-nos depois. Pedi ao Zé, o meu companheiro, que troucesse choco frito, mas ela só podia comer um bocadinho. Veio a família vê-la, o marido tinha um aspeto descuidado e muito abatido, os filhos choravam e não conseguiam estar muito tempo. Depois ela disse-me – O meu marido está muito velho não acham? Às vezes, vinham enfermeiras e auxiliares mudar-lhe o saco das fezes, e era um cheiro insuportável. Ela estava a doses altíssimas de morfina.

Quando tive alta, e voltei lá 2 dias depois à consulta, ela tinha morrido. Eu nunca me apercebi que ela estava a morrer e que nunca nos iríamos encontrar. Ela falava como se isso fosse acontecer, serena e convincente.

Durante 4 anos estive internada umas dez vezes ou mais, sempre com o problema de não se conseguir um veia para o cateter, foram obrigados a construir um no pescoço, na veia jugular, por cirurgia.

Felizmente, alteraram o protocolo, e já não foi preciso ser mais internada. Agora, quando tinha infeção urinária, ia até ao hospital fazer análises e a tal urina acética. O resultado era só após 3 dias, pelo que durante 3 dias tinha que me deslocar lá para fazer um ou mais antibióticos pela veia.

O resultado da toma de quilos de antibióticos foi ter bactérias resistentes a quase todos os antibióticos.

(continua…)

2 pensamentos sobre “Metamorfose 3

    1. Bem, nem por isso, os azares continuaram… Agora nesta fase, da diálise, é como o filme – “Feios porcos e maus”, mas como é uma comédia, o ambiente é meio louco, meio delirante, com muita risada à mistura. Tipo trágico-cómico.
      Obrigado, uma boa semana e belas fotos.

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