Metamorfose 3

É só uma narrativa, um avivar de memórias, nada mais.

O meu transplante renal de 21 anos (3)

As consultas neste segundo hospital eram no 7º piso (Os elevadores estavam constantemente avariados), quando chegava, mesmo com febre, tinha que ir para uma bicha considerável para validar a consulta, a seguir ia ao 3º piso, mais uma bicha para entregar os papeis e só depois ia até ao 7º piso. Aqui, só havia um pequeno banco, onde se sentavam normalmente os da propaganda médica. Quando tinha infeção, era preciso fazer a urina acética, davam-me 2 frascos de colheita, compressas ensaboadas e um frasco de soro. Este procedimento era feito na casa de banho, ali ao lado, a qual não tinha nada onde pousar as coisas, sabão ou toalhas de limpeza, e muitas vezes encontrava-a cheia de urina e fezes.

A minha 1ª infeção urinária neste hospital, levou-me a duas semanas ou mais de internamento, num piso de infeto contagiosos, onde me destinaram um quarto com mais 2 doentes. Quando cheguei, sem me darem qualquer medicação para a febre, e de ter ficado à espera umas boas horas depois da consulta, lá fui para o quarto; digo à auxiliar que não tinha trazido roupa, e ela ríspida – vocês são obrigados a trazer sempre as coisas quando vem com febre, agora não lhe vou dar os protetores de pés! e desapareceu. Quando passou uma enfermeira pedi-lhe os ditos e ela deu-mos, o que provocou um raspanete da auxiliar para com essa enfermeira. Na cama ao lado, junto à porta, estava uma rapariga, a Ana, com uns tubos ligados à barriga, que vim a saber mais tarde, era irmã duma colega do meu companheiro. Ela tinha um cancro nos intestinos.

Após bem uma hora de espera, apareceu a enfermeira com a medicação para o quarto, digo-lhe à laia de queixa que me automediquei porque estava cheia de febre e não me deram nada, e ela – automedicou-se? então não lhe vou dar mais nada, visivelmente zangada, e passou adiante. Levantei-me e fui pedir à primeira enfermeira que encontrei um paracetamol, pois estava a ferver de febre. Um bom tempo depois aparece a 1ª com um ar raivoso e a dizer-me algo desagradável, preparada para me por um cateter, tinha que ser na mão, mas eu disse-lhe que as minhas veias não se apanhavam, eram muito fracas, talvez por tanto antibiótico que havia tomado, e ela insistiu, apesar de doer bastante na mão. À 1ª não deu, à 2ª também não, e à 3ª só durou para um soro.

Estava menstruada e precisava de ir à casa de banho, esta era um cubículo onde só cabia uma pessoa e mal, de tal ordem que não conseguia entrar com o suporte do soro, tive que pedir para me desligarem momentaneamente para poder lá entrar. Quando estava à espera que me viessem ligar de novo, a tal enfermeira passou por mim e com ar ameaçador avisou-me que sabia o que eu andava a tramar, a pedir para andar sem o suporte, e que eu tinha me queixado dela (falso), e outros disparates que nem percebi bem, terminando com avisos e ameaças absurdas e estonteantes. Pensei, ela é louca, mas senti medo, desconforto, insegurança.

A Ana, a minha colega do lado, comia devagar, levando só pequenos pedaços à boca. Conversámos muito, combinámos encontrarmo-nos depois. Pedi ao Zé, o meu companheiro, que troucesse choco frito, mas ela só podia comer um bocadinho. Veio a família vê-la, o marido tinha um aspeto descuidado e muito abatido, os filhos choravam e não conseguiam estar muito tempo. Depois ela disse-me – O meu marido está muito velho não acham? Às vezes, vinham enfermeiras e auxiliares mudar-lhe o saco das fezes, e era um cheiro insuportável. Ela estava a doses altíssimas de morfina.

Quando tive alta, e voltei lá 2 dias depois à consulta, ela tinha morrido. Eu nunca me apercebi que ela estava a morrer e que nunca nos iríamos encontrar. Ela falava como se isso fosse acontecer, serena e convincente.

Durante 4 anos estive internada umas dez vezes ou mais, sempre com o problema de não se conseguir um veia para o cateter, foram obrigados a construir um no pescoço, na veia jugular, por cirurgia.

Felizmente, alteraram o protocolo, e já não foi preciso ser mais internada. Agora, quando tinha infeção urinária, ia até ao hospital fazer análises e a tal urina acética. O resultado era só após 3 dias, pelo que durante 3 dias tinha que me deslocar lá para fazer um ou mais antibióticos pela veia.

O resultado da toma de quilos de antibióticos foi ter bactérias resistentes a quase todos os antibióticos.

(continua…)

2 pensamentos sobre “Metamorfose 3

    1. Bem, nem por isso, os azares continuaram… Agora nesta fase, da diálise, é como o filme – “Feios porcos e maus”, mas como é uma comédia, o ambiente é meio louco, meio delirante, com muita risada à mistura. Tipo trágico-cómico.
      Obrigado, uma boa semana e belas fotos.

      Liked by 1 person

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