Metamorfose 4

É só uma narrativa, um avivar de memórias, nada mais. E aqui acaba esta saga.

O meu transplante renal de 21 anos (4)

A maior parte das infeções, por azar ou boa pontaria, eram numa sexta-feira, sábado, no Natal, nos meus anos, no fim do ano. ou durante uma greve do pessoal de saúde. Se fosse numa 6ª à tarde ou num sábado, só na 2ª feira podia lá ir, mas algumas vezes fui ao sábado e consegui que me fizessem a recolha de sangue e urina, conservavam-na até 2ª para posterior análise, e depois quando lá fosse na 2ª, a coisa estava encaminhada.

Numa 6ª feira, mais uma infeção, a 3ª seguida. No sábado dirigi-me ao hospital, à secção de hemodiálise, onde está pelo menos um médico. Este atirou-me – não há análises ao sábado, venha na segunda – mas Dr. eu tenho sido assistida ao sábado e estou cheia de febre, há 2 dias acabei o antibiótico de outra infeção… ele virou-me as costas, zangado e – é assim ou vai para as urgências! Eu fiquei a refilar sozinha, incrédula e lá fui para as urgências. Passado bastante tempo, sou chamada e o médico da urgência diz-me que não há protocolo de análises para infeção urinária e sugeriu-me que fosse ao posto de saúde da minha área, na segunda… – mas, Dr. eu sou seguida neste hospital, sou transplantada, e é só aqui que me atendem, e ele – Olhe eu já conheço bem esse médico nefrologista que a atendeu… experimente ir falar de novo com ele e boa sorte, vá por ali. Quando me encontrei com o outro, vinda pela porta das urgências, este ficou transtornado a gritar-me que eu não posso estar ali, respondi-lhe que ele não me podia falar assim comigo, ele riu-se e desapareceu pelas urgências. Eu e o Zé ponderámos em utilizar o Livro de Reclamações. Acabámos por ir embora para casa.

Na segunda, de volta ao Hospital, durante a consulta, apareceu o chefe de nefrologia, começando por convidar o Zé a sair. Seguidamente, sucederam-se uma série de ameaças, tratando-me como se fosse alguma terrorista ou delinquente, que pretendia criar o caos no Hospital. Quando lhe disse que pensei em escrever no livro de reclamações, ele ameaçou-me de me expulsar do Hospital. Após a retirada do chefe, tive uma crise de choro, e o meu médico, aparentemente do meu lado, tentou acalmar-me e tudo continuou quase na mesma, à exceção de ter deixado de falar ao tal chefe.

Aos 17 ou 18 anos de transplante, um dos médicos do Hospital, sugeriu-me que experimentasse o extrato de arando, pois a sua mulher, ginecologista, receitava às suas doentes. O arando é eficaz especialmente para a bactéria Escherichia coli (E. coli), impedindo ou reduzindo bastante a aderência da bactéria às vias urinárias. A partir daí passei a tomar o arando, e de fato, houve uma redução considerável da infeções urinárias.

Sensivelmente por essa altura, o rim começou a falhar, já tinha bastantes proteínas na urina, a hipertensão estava incontrolável, o coração já estava afetado e fui perdendo massa muscular, até ficar quase pele e osso.

Após 21 anos de transplante, iniciei de novo a hemodiálise, em 2019.

Já me reconhecia ao espelho, por fora, Não por dentro.

A metamorfose física, pelo envelhecimento precoce, pela deformação do corpo, da imagem e a metamorfose psíquica, pelo desgaste nas estadias frequentes num ambiente hospitalar, as más experiências dos internamentos e conflitos com alguns médicos autoritários, incompetentes e desumanos, afetou-me a minha natural alegria de viver e o meu equilíbrio mental, associado à incompreensão, falta de apoio e empatia dos que me rodeavam.

Esta foi a minha experiência, penso que tive azar, com o rim, com a terapêutica, com os médicos e os hospitais. Não é de forma alguma, recorrente, usual, esta é só a minha história. Mas houve piores, muito piores. Como também boas e excelentes.

Estou novamente no processo, agora longo, de preparação para um novo transplante. O coração recuperou.

Há que fazer uma série infindável de exames, para saberem se estou apta, sempre em Lisboa, porque estou lá inscrita em 2 hospitais para transplante.

Depois de ser aceite, a média de espera é de 4 anos. Desejem-me sorte ou muita m…

2 pensamentos sobre “Metamorfose 4

    1. Eu não sou do tipo dramático e “a minha vida é uma tragédia”, longe disso, mas neste caso ainda não saí do pós-traumático, ainda está muito fresco. É claro que houve coisas boas e divertidas, mas não suficientes… Acho que sou positiva e bem-disposta, mas é uma luta desgraçada. E a Dulce é uma grande lição de vida, uma inspiração, de como apreciar os mais, aparentemente, insignificantes e invisíveis, e dar-lhes uma dimensão gloriosa.

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