Uma Vida de Mar – 4

Continuação da publicação de excertos da epopeia marítima, do Comandante da Marinha Mercante, Jorge Manuel Correia Tomé. A sua atividade estendeu-se desde os anos 40 aos anos 80, do século passado.

OS ANTIGOS NAVIOS A VAPOR E AS SUAS TRIPULAÇÕES

Nos velhos navios a vapor, havia uma classe de tripulantes, que pelo seu árduo esforço, mereciam que lhes rendamos os melhores elogios, pela maneira própria como contribuíam para a boa condução das operações marítimas a que se dedicavam.

Lembro-me sobretudo do árduo trabalho que era executado nos antigos navios, cuja propulsão era feita pelas máquinas a vapor, e que obrigava o pessoal ligado às caldeiras, como fogueiros, chegadores, azeitadores e outros.

Os chegadores, tinham que transportar nos carros de mão, o carvão de pedra, desde as bancas, onde estava armazenado o carvão, até junto das fornalhas das caldeiras, e também quando tinham que remover grandes porções de carvão de um lado para outro, dentro das próprias bancas, para evitar que aquecesse, e pegasse fogo por combustão espontânea.

Havia que carregar as fornalhas das caldeiras, que seria feito pelos fogueiros, com o carvão trazido desde as bancas, pelos chegadores.

Os fogueiros carregavam as fornalhas das caldeiras, ás pás de carvão que eram atiradas para dentro das fornalhas, num ambiente infernal de calor, quantas vezes, debaixo de mau tempo, com o navio a dar violentos balanços.

Havia que tirar, em cada quarto de 4 horas, as cinzas, desde a parte de baixo das fornalhas, seguindo em baldes de ferro, que eram içados desde a casa das caldeiras, até ao convés, a fim de serem atiradas ao mar, numa operação que levava pelo menos muito mais de meia hora. Mas isso não era nada, quando comparado com o esforço que efectuava um ou outro fogueiro, sempre que rebentava um dos tubos da circulação de agua a ser aquecida dentro das caldeiras, que por serem aqui tubulares, havia que isolar, dentro da caldeira, o tubo que havia rebentado, ou que estava a verter, com escorvas, em ambos os lados do tubo, a verter.

A caldeira tinha que ser arrefecida um pouco, mas dada a expansão e a compressão do cobre e do aço, não permite arrefecer uma caldeira, de um momento para o outro, tendo que levar umas boas horas para ser efectuado o arrefecimento. Durante o mesmo arrefecimento, logo que a temperatura chegasse aos cem graus centigrados, era então metido dentro da caldeira, um fogueiro, envolto num cobertor de papa de lã, embebido em agua, para que o mesmo fogueiro pudesse aguentar essa temperatura. de modo a isolar, dentro da caldeira o tubo de agua, que estava a verter. havia que meter, e tirar o fogueiro, várias vezes, até se conseguir isolar bem o tubo, e só depois disso, se poderia ativar de novo a caldeira, numa operação algo demorada.

Recebia este fogueiro, como compensação, por ter sido cozido dentro da caldeira, durante uns bons minutos, um garrafão com cinco litros de vinho carrascão.

Estes fogueiros, eram geralmente homens bastante fortes, que se alimentavam bem, bebiam vinho em certa quantidade, sem que todavia se alcoolizassem.

Digamos, que naqueles tempos, os nossos navios a vapor, eram normalmente já comprados velhos, e as caldeiras, davam normalmente, um trabalhão, nas suas longas reparações, com um bastante elevado custo. Quando ocorria avaria nas caldeiras, encontrando-se o navio no mar, em viagem, havia que reduzir a velocidade, pela pouca pressão do vapor, que chegava à máquina, constituindo um outro contratempo, que se colocava à navegação do navio, tantas vezes, em zonas marítimas com intenso tráfego, ou outras vezes, em zonas restritas, pela proximidade das costas, e outras vezes ainda, acumulando os dois casos mencionados, com o nevoeiro cerrado, onde se navegava em velocidade reduzida, apitando constantemente, e sem radar, que ainda não ingressara no equipamento dessa velharia de navios que compunham a nossa frota mercante na época de antes, e pouco depois da guerra de 1939-1945.

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