Uma Vida de Mar – 5

Continuação da publicação de excertos da epopeia marítima, do Comandante da Marinha Mercante, Jorge Manuel Correia Tomé. A sua atividade estendeu-se desde os anos 40 aos anos 80, do século passado.

Só consegui encontrar estas fotos, no Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa, relacionadas com a descarga de carvão, e duas com as varinas, mas em épocas anteriores e posteriores à data da narrativa. De qualquer modo, não deixam de ser interessantes fotos históricas, que documentam o árduo labor destas pessoas.

Se houver alguém que possua alguma foto dos anos 40 – 50, sobre o descrito na narrativa e queira contribuir, ficar-lhe-ia bastante agradecida.


O TRANSPORTE DO CARVÃO MINERAL UTILIZADO COMO ENERGIA, NOS ANOS 40 E 50

No ano de 1946, quando comecei o embarque no navio PUNGUE, da Companhia Colonial de Navegação, o mesmo navio, fazia uma viagem a Angola e outra viagem carregando carvão, quer em Cardiff, na Inglaterra, quer em Filadélfia, nos Estados Unidos, com destino ao porto de Lisboa, com exceção de um ou outro carregamento de trigo a granel, dos estados Unidos, para Lisboa ou Leixões.
Os carregamentos efetuados na América, eram feitos em cais próprio, onde entravam os vagões, e a operação mecânica, era feita, virando os mesmos, cujo conteúdo de carvão, era escoado depois para os porões do navio, através de uma larga tubagem.
À chegada ao Porto de Filadélfia, a polícia de emigração, os serviços de saúde, e a Alfandega, complicava-nos a vida, com os vistos consulares, e com um ou outro clandestino, que por vezes, embarcava escondido no navio, tendo que ser notificado e entregue à Imigração, para ser recambiado por avião, para o porto, de onde havia fugido, depois de bem interrogado, servindo eu, por vezes, de interprete.
Claro, que alguns tripulantes, também acabavam por fugir para terra, na América, havendo viagens em que o numero de fugitivos atingia até o módico número de sete tripulantes, ficando nesse país clandestinamente.
Quanto a mim, várias vezes, a Imigração me dizia, se eu também não estaria interessado em ficar nos Estados Unidos, e porque andava eu numa porcaria de um velho navio, podendo ganhar dez vezes mais, a trabalhar nos E. Unidos, como já referi noutras crónicas anteriores, mas que eu, nunca aceitei, para não ter que sofrer as consequências jurídicas, bem como por ter ingressado na carreira de oficial náutico.
A ficar nos E. Unidos, teria que que ser, a meu ponto de vista, legalmente, e com a respetiva papelada em ordem.
Entretanto, para toda a tripulação do navio, a estadia no Porto de Filadélfia, era um acontecimento notável, porque, nesse porto se podiam comprar muitos artigos, como as meias de nylon, nessa altura, artigo de grande novidade, por eu ter descoberto um armazém, grossista, onde a tripulação passou a fazer as suas compras, destinadas à família, ou para outros destinos e finalidades.
(…)
Como o comandante do navio não falasse ou compreendesse a língua inglesa, era sempre eu que o acompanhava, para tratar dos assuntos ligados ao navio, com os agentes, fornecedores, carregadores, e outros, ou ainda pelos escritórios, repartições, o que sempre me proporcionava almoços e jantares em bons hotéis e restaurantes.
Por outro lado, havendo sempre algum tripulante adoentado, ou talvez a fazer por isso, lá vinha eu, com esses tripulantes, até à agencia do navio, ou diretamente, pelo Metropolitano, desde onde quer que o navio estivesse atracado ao cais, ou fundeado no rio Delaware, por vezes bem longe do centro da cidade, tomando os transportes necessários, não sendo tarefa fácil, até chegar ao centro de Filadélfia, consultar os médicos, explicando ao mesmo, o que se passava com cada doente, e quando chegava a hora das refeições, acompanhar o pessoal a um restaurante indicado pela agencia do navio, e onde os tripulantes aproveitavam para tirar a barriga de misérias, já que o navio pagava todas essas contas através da sua agencia.
Durante a noite, também em Filadélfia, após o jantar de bordo, os oficiais de bordo iam dar um pé de dança na Associação da Juventude Cristã, IMCA, onde éramos sempre bem recebidos, e sempre no final da dança, dirigíamo-nos ao self-service, para tomarmos um chocolate quente, antes de regressar para bordo.
Logo que se completava o carregamento do navio, uns dias depois, largávamos de Filadélfia, descendo o Rio Delaware, entrando no Atlântico, com destino a Lisboa, atravessando mais uma vez o Atlântico Norte, para pelo menos, apanhar mais um temporal durante o trajeto.
A parte mais interessante do regresso à nossa terra, era, em Lisboa, encontrarmos a família e os amigos, e além do mais, assistirmos à descarga do carvão, no Cais de Santa Apolónia, quase até Xabregas, onde ao tempo, existiam as carvoeiras ou depósitos de carvão, na zona marítima, porque nesses anos, a fonte de energia utilizada, era principalmente o carvão mineral.
Os navios eram descarregados pelas varinas, ou peixeiras da Ribeira, as quais transportavam o carvão nas costas, à cabeça, de igual modo, como se transportava e vendia o peixe por toda a cidade de Lisboa.
As peixeiras, com os cestos de carvão à cabeça, que haviam sido carregados no convés do navio, seguiam sobre pranchas de madeira, não tendo mais de trinta centímetros de largura, passando sobre a borda do navio, e deste, para o cais, igualmente sobre pranchas, e já no cais, a pé, até às carvoeiras, onde o carvão era depositado, em recinto fechado, mas não coberto.
Esta operação de descarga do carvão tornava-se bastante morosa e algo primitiva, mas a parte mais interessante para o pessoal de serviço, a bordo, eram as peixeiras, que se mantinham numa roda viva, cantando, dizendo anedotas, metendo-se com os homens que estavam no convés do navio a encher os cestos com carvão, que vinha do porão, colocando depois os cestos à cabeça das peixeiras, tudo com um bom e vernáculo português. Era um espetáculo, e as peixeiras, quando viam que tinham espectadores, como na Lota, ou na baixa Ribeirinha, refinavam a sua atuação, com mais graça e animação, metendo-se com os homens, seus colegas de trabalho.
Nós, tripulantes do navio, notávamos na maneira como, nessa época, se carregava o navio, por métodos então mais modernos, nos E. Unidos, e como era feita a descarga, no Porto de Lisboa, de maneira arcaica, em cestos carregados á cabeça até às carvoeiras.
Nesses anos pós-Guerra Mundial, ainda a maioria dos nossos navios mercantes, utilizava como combustível, o carvão de pedra ou mineral, para produzir o vapor, nas caldeiras existentes a bordo, sendo uma tarefa árdua e pesada para o pessoal das caldeiras, que tripulavam os navios essa época, assim como a árdua descarga do mesmo, feita em Lisboa, nesses anos de 40 e 50, ganhando o que mal dava para se sustentarem.
Não quero deixar de prestar o meu louvor e apreciação, a estes homens, bem como ao pessoal feminino.

Para uma informação mais detalhada pode consultar :

As Árduas Condições de Trabalho na Central Tejo ( em pdf ), da Fundação EDP

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