Uma Vida de mar – 6

Continuação da publicação de excertos da epopeia marítima, do meu amigo, Comandante da Marinha Mercante, Jorge Manuel Correia Tomé. A sua atividade estendeu-se desde os anos 40 aos anos 80, do século passado.

Ressalvo: As descrições, citam certos termos de uma realidade vivida durante uma determinada época, nos anos 40, não pretendendo o autor identificar-se com as instituições e a nomenclatura em vigor.

DOIS ACIDENTES DECORRIDOS DURANTE A SEGUNADA GUERRA MUNDIAL

Durante a Segunda Guerra mundial, o Paquete Serpa Pinto, da Companhia Colonial de Navegação, manteve-se nas viagens entre Portugal e o Brasil, e às vezes fazendo ligação aos portos do México, com imigrantes, refugiados de guerra, que buscavam sossego e paz, coisa que na Europa dessas eras, só se encontrava em Portugal, nas Américas ou na nossa África.

Numa da muitas viagens, navegando o navio cheio de passageiros, apareceu à vista do mesmo navio, em alto mar, em determinada altura, um dos muitos submarinos alemães, que se encontravam em patrulha no Oceano Atlántico, em busca de presas inimigas, a serem afundadas.

Identificado o navio de passageiros Serpa Pinto, sob bandeira portuguesa, um país neutro, durante o conflito da segunda guerra Mundial, não obstava a que fosse identificado e inspecionado, quando a navegar na zona Marítima Internacional do Atlántico Norte.

Desta vez, parece que havia algo em desfavor do navio português, e o submarino, acabou por dar ordem de abandono do navio, por passageiros e tripulantes, para o que deveriam refugiar-se nas baleeiras do navio.

Normalmente, logo que qualquer navio sai para o mar, toda a gente a bordo, tem no camarote, a designação da baleeira que lhe fica a ser atribuída, onde se encontra, se é a um ou outro bordo do navio. Depois, após inicio da viagem, são sempre feitos exercícios, para que toda a gente se familiarize com a operação do arrear das baleeiras, sempre que surja qualquer caso de emergência, içando-as dos seus picadeiros, ou seja, do sítio onde assentam as quilhas, po-las fora da borda, arrear das escadas de corda, chamadas de quebra-costas, e como arrear as mesmas baleeiras até à superfície do mar. Como a baleeira, ao descer, leva somente os tripulantes por aquelas escadas, ao longo do costado do navio, operação muito delicada, difícil e morosa, para qualquer passageiro, sem ter o necessário treino de mar, anda ao sabor da ondulação ou da vaga, dificultando também a descida de um qualquer passageiro, sem que leve com a baleeira, no momento em que ela, se encontra ao de cimo da ondulação, junto ao costado do navio.

Ao ser dada a ordem de abandono do navio, em tempo de guerra, com a rapidez necessária, porque se demorarem mais tempo a bordo, caso o navio fosse torpedeado, os atrasados iriam com o navio para o fundo, ou teriam o perigo de morrer, com a explosão do torpedo, ou com a explosão dos obuses, que o pudessem atingir, para o afundar.

Pelas ironias do destino, passadas algumas horas, o submarino deu nova ordem, para que toda a gente regressasse a bordo, nas baleeiras, ao mesmo navio, e prosseguisse a viagem, para todos.

Perante uma tal ordem em contrário, para o regresso de toda a gente ao navio, houve que avisar todas as baleeiras, para que remassem para junto do navio, subissem para bordo pelas escadas de quebra-costas, ao longo do costado do navio, até chegarem ao convés, após o que deveriam içar as baleeiras a pulso, por não haver já vapor, com suficiente pressão, para trabalhar com os guinchos, que deveriam içá-las.

Naturalmente, que só ao fim de umas boas horas depois do regresso, se conseguiu vapor com boa pressão na caldeira de bordo, a fim de içar o resto das baleeiras, o mesmo acontecendo, com o vapor nas caldeiras, a suficiente pressão, para fazer mover a máquina do navio, e consequentemente prosseguir viagem.

Não devemos esquecer o que deveria ter sido a confusão do regresso dos passageiros e tripulantes a bordo do navio, dando-se então, por falta de uma criança de colo, que naturalmente, durante a atrapalhação do arrear das baleeiras, poderia ter caído ao mar, com grande consternação dos pais da criança.

No final, além do bebé perdido, do susto e da trabalheira que toda a gente apanhou, não houve mais desaparecimento, nem termos a lamentar a perda de um navio português, que ainda navegou durante muitos e muitos anos, até ser substituído pelos paquetes Vera Cruz e Santa Maria.

Um outro acidente, quase do mesmo género, aconteceu também, com um colega, que conheci, e com quem andei no mar durante algum tempo, e com estive na Inspecção da Companhia Colonial, em Lisboa, pessoa de quem não menciono o nome, dados os factos que vos vou relatar:

Estava esse colega a comandar um dos navios da Colonial, durante a Segunda Guerra Mundial, fazendo viagens no Atlântico. Num determinado dia, enquanto decorria o conflito mundial, foi o seu navio abordado por um submarino alemão, para identificação e fiscalização de guerra, e na precipitação do momento, o comandante, ao avistar o submarino, precipitou-se, e sem ponderar bem a situação, dá ordem á sua tripulação, para abandonar o navio, julgando que o navio ia ser torpedeado e afundado.

Com rapidez, a tripulação embarcou nas baleeiras, e quando todo o mundo já estava no mar, o submarino andou pelas baleeiras, procurando onde estava o comandante do navio, e logo que o encontrou, procurou-lhe porque dera ordem para abandonar o navio, e só depois de se verificar que o comandante do submarino alemão, não havia dado ordem nesse sentido, teve o submarino que andar a rebocar as baleeiras até junto do navio, para que os tripulantes subissem de novo para bordo e prosseguissem a viagem. claro, que para ser posto de novo o navio em marcha, perderam-se muitas horas. À chegada do navio a Lisboa, perante o relatório dos factos anotados no Diário de Bordo, o meu colega foi despromovido de Comandante, e só mais tarde, voltou de novo, a comandar os navios da Companhia.

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