Um dia na hemodiálise

Eu na hemodiálise
Eu na hemodiálise em versão a óleo

É uma espécie de registo da minha realidade quase diária, há mais de 2 anos, situação já vivida uns anos antes, durante 4 anos. No intermédio vivi com um rim na barriga, transplantado, que apesar de durar 21 anos, foi mais um jardim de espinhos do que de rosas.

A hemodiálise hoje é bastante mais eficaz do que há 20 anos, pois os filtros eram simplesmente lavados, reutilizados, e agora são descartáveis.

Terá algum interesse? Não sei, mas é uma realidade que muitos vivem neste país, e que passa despercebida a muita gente.

É terça-feira, dia de hemodiálise. Domingo e segunda foram de folga, e já estou um pouco inchada e meio intoxicada, pois já não urino nada, logo os líquidos acumulam-se por todo o lado e como não há filtragem do excesso de componentes como o potássio, fósforo e ureia, já sinto alguma fraqueza nos músculos, enjoo e sabor de ureia na boca.
Levanto-me por volta das 8 horas, esta noite a nossa cadelinha, acordou-nos 2 vezes para vomitar, e como foi em direção à porta a choramingar, o Zé teve que a levar à rua, às 4h e 6h da madrugada. A Maia também tem insuficiência renal e problemas de fígado. Toma 6 comprimidos por dia e como ela é doida por batata-doce, esta combinação resulta na perfeição.
Vou regar as plantas das 2 varandas, que mais parece uma floresta tropical, e ainda gasto uns bons litros de agua. Aprecio a vista espetacular para a baia do Sado, com Troia ao fundo e a Serra da Arrábida à direita, e sinto-me uma privilegiada com esta dose de beleza logo pela manhã.
A 1ª a comer é a Maia, comida caseira, devido à doença, a que se segue uma brincadeira com a batata-doce, em que ela fica à espera que eu distribua pequenos pedaços de batata por umas forminhas no chão, depois chamamos por ela, e só então ela avança.

O nosso pequeno-almoço, normalmente é muesli, apesar de ter levado um raspanete da nutricionista, que devo variar; Ok, com pachorra, lá faço um doce de tapioca, com mel e canela, bem bom!

Saímos, vamos à estação de serviço, mesmo aqui perto, beber um café, fumar um cigarro, e levar a Maia, a fazer o que tem a fazer, depois segue-se uma brincadeira, para ela correr um pouco. A diarreia dela continua.

Não sou fã de fazer comida, talvez, porque perco demasiado tempo útil, e ainda por cima se tiver que seguir a dieta, tofu, carnes magras, legumes e fruta, esta quase proibida (excesso de potássio), lácteos (excesso de (fósforo), etc, que fico sem vontade. Às vezes o almoço vem do dia anterior, caso contrário, ou sai um produto processado (não recomendável) ou um petisco do restaurante paquistanês, aqui perto, o que normalmente dá mau resultado.

Às 12h ou antes, tenho que estar fora de casa. Preciso preparar a lista de coisas para levar, e hoje resolvi escrever uma lista para colar à porta, porque me esqueço sempre de alguma coisa. As luvas, colete com gorro e roupa propria, quente e cómoda, pois rapamos um frio terrível, o lanche, que agora não podemos levar devido à pandemia, e o telemóvel, são os imprescindíveis. Por fim os 2 calmantes para dormir.

As sessões começam ás 13h, mas quase nunca é verdade, e como eu vou de carro, sou geralmente a última a ser ligada. A esmagadora maioria dos doentes, vão de ambulância, e alguns chegam 1 hora antes, pois vão dar voltas e mais voltas, a recolher os outros, o que significa, que a maior parte não almoça, pois podem ter que sair de casa às 10 horas.

Eu já passei por isso, no inicio, só tive vaga na Amora, e no turno da manhã, que começa às 7h, o que me obrigava a levantar às 4,30 da madrugada, para estar às 5h na rua, onde a ambulância ainda tinha de fazer uns quilómetros pelo mato, para ir buscar mais dois utentes.

Almoço, visto a roupa própria, verifico tudo e tomo os 2 comprimidos. Tomo, porque durmo mal e pouco, durante a noite, e não aguento estar 5 horas sem me poder mexer, deitada e sem nada para me distrair. Também porque sou hiperativa, e fico super impaciente nesse estado.

Ainda não nos deixam levar nada para comer, ler, nem almofada, nem manta ou algum saco, só mesmo o telemóvel. E umas gomas escondidas para iludir a fome, que dói.

Confiro a checklist, e lá saímos os três, incluindo a Maia. Há 13 anos que andamos sempre com ela, pois por vários motivos, não conseguimos treiná-la a ficar em casa, o que representa quase sempre, uma situação complicada, é a chuva, é o calor, encontrar uma sombra, ter que ficar numa esplanada, etc. Há 13 anos que não vou, praticamente, a um cinema ou espetáculo ou exposição, porque também não gosto de ir sozinha.

Segundo alguns estudos, um cão, não aguenta mais de 3 horas sozinho, fora umas 2 ou 3 raças.

Vou beber um cafezinho, lá perto e fumar (um pouco às escondidas). A esta hora, já lá estão quase todos.

O tempo de espera para a chamada é variável, conforme o atraso do turno anterior, ou o atraso das ambulâncias, porque uma ou outra máquina avariou, ou o sistema informático, ou ainda qualquer acidente com um doente.

Como sei que sou normalmente a última, espero no carro, em frente, que a sala de espera fique vazia. Mudo de máscara, dispo o casaco, aproximo-me, e fico à porta, à espera que a segurança, me meça a temperatura. Calço os pezinhos de proteção, vou ao cacifo, e espero que me chamem, para a sala A. São 4 salas com 12 a 15 doentes.

Quando chamam, vou para junto da balança, à espera que me venham pesar. A diferença entre o peso seco, e o que trago, terá que ser retirado pela máquina. No caso de estar mais magra ou mais gorda, já vai haver uma desajustamento, provocando cãibras e tensões baixas ou altas. Mais de 2 kg, já é um grande esforço, e saio bastante cansada. Há quem leve 4, 5 até 6 kg a mais, e como não é viável extrair essa quantidade numa sessão, irão ter que repetir no dia seguinte.

Entro na sala, cumprimento todos ou quase, dirigo-me a um velhote de mais de 80 anos, meto-me com ele, rimos os dois. Já tenho uma certa confiança com ele, após estes 2 anos. Já fomos almoçar juntos, vou lá a casa de vez em quando. E é o único. Tinha uma amiga, que também, nos relacionávamos, mas morreu de covid, há uns meses. Gostava muito dela. Era brejeira quanto baste e muito alegre, apesar dos inúmeros problemas de saúde e socio económicos. Morreram muitos da minha sala ao longo destes 2 anos.

A maior parte são diabéticos, com mais de 60, 70 anos e alguns deles sem os membros inferiores, e meio cegos, devido à diabetes. É como estar num centro geriátrico de dia.

Quando chego à cadeira articulada, preciso de compor algumas coisas : esticar o lençol capa, mudar o comando da cadeira, para o outro braço, tirar o encosto, que me provoca dor na nuca, devido a uma artrose que tenho no pescoço, pôr o aparelho de tensão no braço direito, porque no esquerdo tenho a fístula (onde vão picar), pedir 4 mantas, 1 para apoiar o braço, outra para fazer de almofada e as outras 2 para tapar-me, pois rapamos ali um frio a sério.

Converso um pouco com o meu vizinho, que é de poucas falas, e tem cerca de 74 anos. Queixa-se novamente da falta do lanche, e diz que já não pergunta mais a ninguém “um diz que está para breve, outro que talvez”. A diálise elimina boa parte do que as pessoas comeram antes, e como tem de extrair o que trouxeram a mais do peso seco, que pode chegar a 3 ou 4 Kg, nós passamos uma fome desgraçada, até dói.

Há sempre um ou outro doente, que protesta, alguns até insultam, porque é sempre o ultimo (não é verdade), ou os que passam á frente dos outros, e são recorrentes, ou seja, fazem sempre isso, há anos. E mesmo assim ainda há enfermeiras e auxiliares que se exaltam com eles, sabendo que são sempre assim, que dizem sempre o mesmo.

Chega a minha vez. Medem-me a tensão. Se estou com o peso equilibrado, a minha tensão costuma ser baixa, 11/8. Desinfetam o braço onde vão picar. A enfermeira, diz normalmente alguma piada em relação à fístula ( ligação de uma veia a uma artéria), que parece a serra do Caldeirão ou uma cobra, pois já tem quase 30 anos e está híper dilatada, cheia de curvas e contracurvas.

As 2 punções, uma na artéria e outra na veia (espessada) são feitas com agulhas do diâmetro de uma agulha de croché, entram cerca de 3 cm pela artéria. Eu cada vez tenho menos sítio onde picar, pois não se deve picar sempre no mesmo, e os meus “montes” estão a ficar fibrosados. Ao princípio quando as veias ainda são finas, é frequente furar a parede e provocar hematomas, o que me aconteceu no 1º ano. Agora é mais raro, mas como é difícil saber onde está a curva da veia, tocam na parede, o que provoca mais dor e pode originar um hematoma. também é frequente acertarem-me em terminações nervosas, o que dá uma dor indescritível.

Um dia picaram-me de um lado e a agulha saiu pelo outro. outra vez acertaram-me num nervo e vi as constelações todas do universo, uma dor “extravagante”, tiveram que a tirar e picar noutro sitio; Quando uma outra enfermeira passou por mim, e eu estava num pranto desgraçado, perguntou-me se tinha algum problema em casa… e aquela responsável, absolutamente indiferente.

À medida que vamos conhecendo o nosso braço da fístula, convêm orientar a enfermeira onde deve picar e a orientação da agulha, ainda que não seja fácil ter um mapa aproximado da coisa.

Muitas vezes, ao tocar na parede ou num nervo, tem que mudar a direção da agulha, ou quantas vezes retirá-la uma ou 2 vezes, para a espetar noutro sítio.

Tudo isto é feito sem qualquer anestesia, pois a dor é o indicativo se as agulhas estão bem posicionadas, para haver um débito de sangue com uma boa pressão, indicado no monitor da máquina de hemodiálise.

Às vezes perdura alguma dor, seja da picada, por esta a tocar na parede, ou uma dor muscular de manter o braço mal apoiado no braço da cadeira. Às vezes insuportável.

Até às 14h, ainda converso ou jogo no telemóvel, mas a tensão arterial começa a descer e vou ter que deitar a cadeira na horizontal. Ora só podendo mexer um braço, com a TV em silêncio e sem legendas, não havendo hipótese de conversar, só me resta tentar dormir sob o efeito dos comprimidos que tomara.

Como o ruído e a luz dificultam o sono, ponho os auscultadores ligados ao rádio do telemóvel e tapo a cabeça com a manta. Sou acordada várias vezes. pelo novo turno das auxiliares que falam aos berros literalmente, ou pelo médico de rotina ou pelo alarme da máquinas, etc.

O tempo é muito mais comprido, nunca mais corre, nesse estado de quase imobilidade, incómodo e quantas vezes doloroso.

É frequente ter cãibras, ás vezes bastante dolorosas, por défice de minerais, ou descontrole de peso, o que obriga a enfermeira a parar a extração de algum peso, ou adicionar soro, pelo que saímos com peso acima do peso seco, logo vamos acumular para os dias seguintes. A baixa repentina de tensão arterial também é comum, podendo originar desmaios ou vómitos.

O ambiente social é um pouco estranho, quase em regime prisional, criando-se amigos e inimigos com o pessoal auxiliar sobretudo, demasiado suscetíveis a qualquer observação e critica, tratando-nos quase como débeis mentais, dada a nossa vulnerabilidade e as suas funções menores, de pau para toda a obra, pagas a salário mínimo, algumas a trabalhar à mais de 20 anos, com excesso de horas extras não remuneradas.

Passadas 4 horas e 10 minutos, o tratamento está completo. Ao retirarem os adesivos que seguram as agulhas, e as próprias, também estamos suscetíveis a hematomas, por isso tem que haver o máximo cuidado. A seguir segue-se a hemóstase, para estancar a hemorragia, obrigando os doentes que podem fazê-lo, a pressionar com compressas o sítio das picadas, por 10 ou 15 minutos até estancar.

Há que esperar que me venham fazer o penso, medir a tensão e por fim esperar que me venham pesar, para verificar se corresponde ao peso seco, e se o excesso foi todo retirado.

São por isso cerca de 5 horas ou mais na clínica.

Só resta ainda ir ao cacifo, e lá fora espera-me o meu companheiro com o lanche. Estou esfomeada! A maior parte dos outros, ainda tem que ficar à espera da ambulância, que só arranca quando todos lá estiverem, o que demora o seu tempo, e só vão chegar a casa bem mais tarde. Muitos vem de bastante longe, dezenas de quilómetros de distância.

Na quinta-feira, tudo se vai repetir de novo. E depois no sábado também.

4 pensamentos sobre “Um dia na hemodiálise

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